O Preço da Liberdade
Clarice Lispector

Em 2021 o mundo relembra os setenta e seis anos da libertação do Campo de Concentração de Auschwitz. Para quem não se recorda, segue um resumo rápido do lugar. A década é a de 40 e o mundo é invadido, novamente, por uma grande guerra de proporções aterrorizantes. O governo nazista ia conquistando território e fazendo cada vez mais prisioneiros, dentre eles em sua grande maioria judeus, homossexuais e ciganos. Estima-se mais de um milhão de mortos. Sim, você não leu errado. Um milhão de vidas foram ceifadas. Sem contar as centenas de milhares que sofreram com trabalho forçado e viviam (sobreviviam) em situação de extrema precariedade.
Há mais de 130 anos, em terras tupiniquins, num domingo festivo onde era comemorado o aniversário de Dom João VI - sim, o mesmo que fugiu de Portugal e veio para o Brasil em 1818, era assinada a Lei Áurea. Era o fim de uma era. Era a liberdade para uma nação oprimida pela ganância. Contudo, essa liberdade foi e é questionada até os dias de hoje, porém não vamos tocar nesse ponto neste texto.
Falamos a respeito de dois fatos históricos que marcaram a vida de centenas de milhares de pessoas. Marcas que foram perpetradas em suas almas. Cicatrizes que estarão presentes mesmo após algumas centenas de gerações.
Hoje, em pleno século XXI, parece que não aprendemos muito com o passado. Não vemos em nosso país pessoas sendo vendidas em praça pública. Contudo, vemos pessoas serem julgadas em sua vida pública, que outrora foi privada. Já não observamos navios abarrotados de escravos ancorados no cais. Hoje assistimos, dentro das nossas casas, pessoas sendo achincalhadas a respeito de suas escolhas. Repito: suas escolhas, suas vidas. O que mais assusta é que muitas vezes isso não nos incomoda, soa normal. Não nos faz pensar, repensar e agir. O que nos leva a pensar que temos o direito de julgar alguém? Em qual momento da racionalidade humana perdemos o senso de amar ao próximo?
Em escala mundial somos prisioneiros de padrões, pensamentos, ideais e tudo aquilo que nos impede de sermos quem queremos ser. Rico, pobre, solteiro, amigado, casado, negro, branco e toda a miscelânea que somos e podemos ser.
Há quase cem anos vimos uma explosão de liberdade na Semana de Arte Moderna. Libertação no pensamento, na arte, na sociedade, na vida. Cem anos e pasme: às vezes dá impressão que o mundo vem retrocedendo. Que possamos desfrutar dessa liberdade através das artes. De cada uma delas. E no nosso caso, dos livros. Do poder de colocar nas palavras aquilo que sentimos e pensamos. Que possamos extrair de cada palavra lida uma lição e que esta transforma-se em combustível para nos levar para frente, sempre.
Para finalizar, a imagem representativa é um pássaro. Acho que não há maior exemplo de liberdade. Na verdade, uma das maiores crueldades do ser humano é admirar tanto um pássaro ao ponto de trancá-lo numa gaiola. Talvez seja esse o maior paradoxo que exista. Que amor é esse que prende para não perder? E afinal, qual o preço da liberdade